A cartomante

Juliana era uma doce jovem, de lindos cabelos cacheados negros, com seus olhos verdes. Com seus 20 anos recém completados, qualquer um que a olhasse pensaria que não iria mais encontrar alguém tão bela. Sua vida profissional não ia bem, de certo se preocupava com tal situação, mas nada que a alarmasse. Entretanto, naquela segunda-feira, acontecerá o inesperado. Seu noivo rompia tudo, não havia mais compromisso. Agora nem trabalho, nem amor. Para ela nada fazia mais sentido. Cada um suporta o que pode suportar. Para ela fracasso profissional não era motivo de desespero, mas, por algum motivo, suportar a perda de uma paixão era a maior desilusão.

Naquela semana, ao sair para seu trabalho, viu a porta aberta de uma cartomante. A vontade em saber o futuro era inevitável. Sempre vêm aquelas vozes, “Você acha que vai mudar de vida ouvindo uma cartomante”, “ele não irá voltar só de saber o futuro”. Mas alguns porquês deveriam ser respondidos. Resolveu entrar.

A casa era humilde. Na entrada tinha uma faixa: “Entre e sinta-se em casa.” Logo abaixo da faixa tinha uma placa de metal, um pouco enferrujada escrito “Madam  Janet”. Ao chegar na salinha de espera sentou-se num pequeno sofá, ficou a observar uma estante cheia de santinhos, ao mesmo tempo pensava em desistir. Novamente ouvia em sua cabeça, “Vá embora, tem mais o que fazer.” De repente:

– Juliana pode entrar.

Ela pensou: “Como? Meu nome? Mas eu não disse nada.”

– Sim Juliana, entre.

Ela se levantou e foi até a entrada para um quarto sem portas, apenas com um cortina artesanal, decorada com figuras místicas. Ao entrar, sentou-se e logo a questionou.

– Como sabe meu nome?

– Nomes são fáceis de saber hoje em dia, não digo o mesmo dos sobrenomes. E você sabe qual meu nome?

– Madame Janete, certo?

– Sim, e no que posso ajudá-la?

– Eu pensei que você soubesse meu problema, já que sabia meu nome.

– Quem dera você só tivesse apenas um problema. Posso tentar começando pelo problema dos seus pais, falar do seu trabalho, ou então ir direto ao seu imbróglio amoroso.

Ao falar isso, ela abriu os olhos, fitou-a fortemente. Foram alguns segundos de silêncio até que Juliana diz:

– Bem, realmente. Tenho um problema amoroso.

– Conte-me.

– Sérgio, meu noivo, terminou o nosso noivado sem motivos aparentes. Tem como a senhora me dizer por quê?

– Não, só ele pode te dizer o porquê.

– Nos iremos voltar?

– Não sei. Por mim vocês voltariam, mas acredito que está fora do meu alcance.

– Ele tinha alguma amante?

– Impossível dizer.

Nesse instante um ar de impaciência pairava sobre sua face, quando ela retrucou:

– Do que adianta vir aqui se a senhora não sabe de nada? Ou então não quer me contar, apenas para me poupar dos detalhes.

– O que sei, diz respeito apenas a você, porque não experimenta perguntar sobre você?

– Hum…. – Suas perguntas agora vinham com o ar desafiador – O que fiz de errado para não dar certo?

– O mesmo que está fazendo agora. Ao invés de me conhecer, tenta me desafiar.

Pensou com ela mesma, “TOMA”. Aquela sensação de tapa na cara deixou-a nervosa. Resolveu desafiar novamente, afinal queria respostas.

– Gostaria que você visse meu futuro. – Pensou que assim poderia obter alguma resposta, ou no mínimo achar um motivo para desmascarar a cartomante.

– Sim, vamos lá.

A cartomante embaralhou seu baralho velho, cheio de falhas nas pontas. Arrumou o pano que cobria a mesa, e distribuiu o baralho na forma de um retângulo perfeito. Enquanto Juliana a olhava fixamente, a cartomante não tirava os olhos do baralho. Nenhuma reação a cada carta virada. Nada, simplesmente nada. Ao chegar à última carta, um suspiro.

– Bem…

– Diga, o que vê ai? – Nesse momento esquecerá que a desafiava, queria uma resposta, qualquer resposta que fosse.

– Calma. Assim como as cartas, a vida é. Assim como minhas cartas, a vida foi. Vejo em teu futuro um amor verdadeiro, e um futuro melhor no aspecto profissional. Nada vejo com relação a teus pais. – Escute bem o que te direi, talvez essa seja a mensagem que precisa ouvir. As cartas são como futuro: aleatórias. Se embaralhá-las novamente, não te dirão as mesmas coisas que vi nesse momento. Precisa entender que agora está na hora de juntar suas cartas e colocá-las no seu monte. Precisa tomar as rédeas da tua vida. É impossível entender o futuro com base em nosso passado, mas no futuro entenderá o seu presente, olhando para trás.

Juliana permaneceu calada. Pagou a cartomante e foi embora.

Ao vê-la sair a cartomante olhou para janela e viu Juliana descendo a rua, e pensou:

“Muitas pessoas entram aqui precisando ouvir apenas boas notícias. Ela tão nova queria apenas uma direção para seu futuro. O que 52 cartas podem dizer sobre isso? O que a vida reserva a ela não cabe num deck de baralho.”

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