Senhor, Eu jogo.

Ludo é um ser único. Bem, o que há de diferente nisso? Somos todos únicos, mas ele era um daqueles seres do contra, meio teimoso. Ludo tinha uma mania bizarra, acompanhava desde seus 15 anos a loteria, mais especificamente a QUINA. O que havia de estranho nisso era o fato de nunca ter feito uma fezinha, nunca apostou sequer um bilhetinho, pois seu pai sempre dizia: “Meu filho, se você quer enriquecer então só trabalhar, nada de jogo de azar!”. Ele colocou essa lição em sua bagagem e levou para a vida.

Na realidade, ver o resultado da quina era uma espécie de hobbie, ele morria de vontade de jogar, mas aquelas palavras do seu pai sempre atormentavam sua mente. Sempre dava lições aos amigos para não brincarem com jogos de azar, caso ele jogasse sentia que todos o julgariam, sendo assim era melhor não mexer com isso em hipótese alguma.

Senhor Ludo com seus 60 anos viu a vida passar e viu milhares de resultado de quina. Sempre pensava na possibilidade de ganhar. A cada dia a vontade crescia e a certeza de ganhar caso jogasse também, afinal virá milhares de resultados e isso poderia ajudá-lo. Mas as palavras de seu pai continuavam a atormentá-lo, aquilo não saia de sua cachola.

Porém naquela semana aconteceu algo que o deixou extremamente… huuummm… diria putooo da vida. Seu sobrinho no auge da vida, recém completados 18 anos, ganhou um prêmio por ter feito a quina, embora ele tenha apostado num jogo de sena. O prêmio não foi dos melhores mas bom o suficiente para aquele pirralho com espinhas na cara. Pensou com ele: “Passei 45 anos vendo jogos e jogos de quina e esse pirralho ganhou um prêmio sem nunca ter acompanhado 10 sorteios. A verdade é que não preciso tirar a sorte grande, uma sorte marromenos já me vale um bom prêmio. Com a minha experiência será facin, facin. Issooo, amanhã jogo nessa quina!”

Após todos aqueles anos Ludo ia feliz rumo à casa lotérica. Pensou em comprar um bom lanche no caminho imaginando o prêmio que receberia. Tem gente que conta com o ovo na cloaca da galinha. Ele pelo visto já tava fazendo a digestão do ovo. Fez o jogo e foi pra casa esperar o resultado. Pela primeira vez acompanharia um resultado onde teria chance de ganhar. Passou a tarde toda esperando pelo resultado.

Às 20 horas daquela terça-feira saiu o resultado. Cada pedra que saia era uma ruga a mais em seu rosto. Além de não ganhar o resultado ainda não conseguiu acertar um número sequer. Foi como a profetização das palavras de seu pai. A decepção de ver um pirralho ganhar um prêmio de loteria ou a decepção de não acertar um número mesmo com anos de experiência, o que era pior? O que era pior eu não sei, mas a melhor opção foi justamente a escolhida por ele. Ficou em silêncio e não mais comentou sobre aquilo.

Depois disso nunca mais jogou nem acompanhou qualquer resultado da quina, e resolveu expandir seus negócios. Sua empresa que já tinha uma franquia em cada estado brasileiro agora seria levada para fora do país. Dinheiro ele não precisava mais, mas as palavras de seu pai ainda ressoavam em seus ouvidos. Pensou e reformulou: “Não trabalhar é um jogo de azar!”

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