Materializando

Um belo dia eu e uma amiga fomos ao shopping com um amigo para ajudá-lo a escolher o primeiro presente para sua namorada. Depois de muitas vitrines, resolvemos tomar um sorvete. Só que o meu amigo quem pagou o nosso. Ficamos super sem graça, morrendo de vergonha, afinal de contas o pensamento enraizado pelo senso comum atual de que “sou auto-suficiente” era forte.

Outro belo dia eu e uma amiga diferente fomos num café com outro amigo. Cada um pediu o que quis, comemos, conversamos a beça, rimos… No final, de forma bem sutil, ele pegou nossas comandas, continuou a conversar com a gente, e se retirou da mesa. Pouco tempo depois ele voltou. Não tínhamos percebido, mas ele havia pagado nossa conta. Mais uma rodada de “sem graça” e “vergonha”. Ele tomou a posição de “parem com isso, não é nada de mais, só quis ser gentil” enquanto a gente se olhava com cara de tacho e bochechas rosadas.

Até que ele começou a nos indagar o motivo de nos sentirmos assim. Pois para ele era um ato gentil, enquanto pra gente era algo quase como caridade. Depois de uma conversa um tanto embaraçosa pra gente, ele começou a nos explicar que estávamos com o pensamento errado, afinal a maneira como vínhamos pensando não nos permitiu receber o sentimento de gentileza dele para sentirmos gratidão por isso.

Ah, isso ficou na minha mente por algum tempo. Por algum motivo, eu não conseguia compreender a essência disso que ele falou. “Ninguém precisa se preocupar em pagar as coisas pra mim, oras”, eu costumava pensar. Depois de um tempo eu entendi o erro.

 Eu dava ênfase no pagar, quando na realidade a ênfase estava no preocupar. Meu sentimento egocêntrico só se importava com meu orgulho de ser auto-suficiente (como se isso fosse algo muito bom…) e bloqueava totalmente o sentimento de gratidão, gentileza e carinho da pessoa materializado naquela ação. Se alguém se preocupou com você, isso é algo bom.

Mas é aquela história né, tratando-se de $$$, pensamos com os bolsos e nosso bom senso vai por água abaixo…

Ainda assim eu ainda não tinha compreendido totalmente. Até que outra situação surgiu.

Uma amiga da minha mãe queria muito que sua filha se enturmasse no nosso grupo, e acabou me pedindo ajuda nisso. Apresentei-a a algumas pessoas e o resto foi acontecendo naturalmente; na verdade, eu nem fiz nada. Um tempo depois, a menina já tinha até viajado com o pessoal. Após a viagem, eu encontro com a mãe dela, que vem falar comigo. Ela me deu um abraço super apertado. E depois veio me entregar presentes.

“Um é para sua irmã, que fez aniversário, não é? O outro é pra você, seu aniversário é semana que vem”, disse ela. Eu, olhando para o terceiro embrulho, indaguei “Mas tem um terceiro…”

“Ah, o terceiro é pra você, querida…muito obrigada!”

Foi quando eu finalmente entendi. Aquilo era a maneira dela materializar sua gratidão. E era algo muito importante para ela. Eu fiquei emocionada e pude sentir seu sentimento ali naquele embrulho… Não precisava falar nada, nem explicar demais, estava claro. Deixei meu sentimento em segundo plano para tentar compreender o que ela sentia. Dessa vez eu não fui levada pelo senso comum e pela etiqueta que nos ensina a negar o que nos é oferecido por educação.

Confesso que receber a gratidão dela foi uma das sensações mais nobres que já tive.

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4 respostas em “Materializando

  1. Muito bom. Eu sei praticamente todos os personagens aí ocultos na história, hehehehe.

    Mas ficou bonitinho o texto. Eu sempre pensei desse jeito. A gente pode ficar um pouco sem graça, não querendo que a pessoa pague, mas (ainda mais quando insiste) pra ela é uma forma de te agradar naquele momento, uma gentileza, uma espera de um “muito obrigado”.

    Assim como gostamos de fazer os outros felizes, temos que deixar os outros nos fazerem felizes, pois isso os deixa felizes também.

    Bjos

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