A constelação de uma estrela só

O céu estava estrelado naquele dia. O brilho das estrelas era nítido a ponto de se reconhecer as constelações menos brilhantes. Era um dia perfeito para estudo e observação dos astros. Órion, o ajudante do professor Hiparco, não cabia em si de empolgação pela oportunidade oferecida pela natureza.

Durante o dia eles costumavam fazer muitas leituras e cálculos para, à noite, fazerem observação e estudo de campo. Sua tarefa era basicamente registrar a magnitude das estrelas. Ele não se gabava disso, afinal era louco para participar de algum estudo de fato importante que o professor vivia realizando. Entretanto, observar o céu a noite o fascinava, e isso talvez o impedia de recusar as tarefas passadas pelo Prof. Hiparco.

Órion e o professor Hiparco estavam juntos, no quintal do laboratório, realizando o estudo de campo. Órion tomou sua posição de costume, com os papéis em mãos, fazendo eventuais anotações alternadas aos longos períodos de observação do céu. O professor, ao contrário, permanecia absorto em suas anotações complexas e leituras. Órion achou estranho, afinal como pode o professor ficar todo esse tempo sem dar uma olhadinha sequer para as estrelas?

-Professor?

-Sim?

-Desculpe interrompe-lo, mas… O senhor não acha que Zuben Elgenubi está mais brilhante hoje?

– Zuben Elgenubi?? Sim, sim, hoje o céu está mais equilibrado… – retrucou o professor, sem ao menos olhar para o céu. Ele escrevia freneticamente em seu caderninho. Órion ficou estupefato, não se convenceu dessa situação. O que o professor tanto lia e escrevia que era mais interessante que o próprio céu?

-Ahn… professor?

-Sim, Órion?

-Ahn… Como poderia saber de tal fato sem dar uma olhada para o céu, senhor?

-Eu já o adverti sobre ficar devaneando com o céu. Há muito o que se descobrir com os astros. Se ficarmos observando-os sempre da mesma maneira, não sairemos do lugar.

O professor fez a advertência sem nem olhar para Órion. Confuso com o significado da advertência e corrompido pela curiosidade aguda, ele não aguentou; interrompeu pela terceira vez.

-Desculpe professor, mas o que prende tanto sua atenção?

Neste momento, o professor desviou o olhar dos livros. Olhou para frente, numa posição de reflexão. Na realidade, apesar de sua cabeça e olhos estarem posicionados para frente, ele não estava olhando de fato. Órion ficou meio assustado e admirado ao mesmo tempo ao observar a cara contemplativa do professor. Por um instante, ele achou que sua curiosidade seria sanada. Porém, esse estado contemplativo durou por algumas horas.

Por fim, depois de encarar o professor por um bom tempo esperando alguma explicação, Órion definitivamente confirmou sua teoria de que o professor Hiparco só podia ser maluco e voltou ao seu trabalho de registro. Na verdade, de registro ele não fez muito; deitou no chão e voltou ao seu estado contemplativo que só o céu o proporcionava.

Passaram-se horas, até que as estrelas começaram a sumir à medida que o céu clareava lentamente. Esse era o sinal de que o trabalho de campo se encerrava. Órion morria de preguiça só de imaginar que um dia de leitura o aguardava. Ele queria mesmo era ir dormir.

Ele então levantou e se sentou. Olhou para trás, e num susto não acreditou na cena: o professor estava exatamente com a mesma cara contemplativa de quando advertiu Órion há algumas horas atrás. Na verdade, parecia que ele não tinha mexido um fio de cabelo sequer.

Órion passou a mão na frente do rosto do professor, tentando fazê-lo piscar. Nada de reação. “Talvez ele morreu com o êxtase da descoberta… mas coitado, nem teve tempo de passar isso pra frente”, Órion pensou.

-Professor?? O senhor está aí?? Hey…professor….PROFESSOOOOOOOOOOOR!!

Professor Hiparco piscou os olhos. Lentamente virou a cabeça na direção de Órion, e deu um sorriso bastante peculiar de quando ele faz uma descoberta importante.

-Órion… você poderia me falar a definição de constelação, por gentileza??

-Quê? Ah, sim, er…constelação é uma área do céu delimitada por estrelas. Podem tomar formas que se assemelham a objetos, animais ou seres humanos. É, basicamente isso.

-Exato. Assim sendo, haveria alguma constelação formada por uma estrela??

-Uma estrela?? Apenas uma estrela solitária, senhor?

-Exato. Haveria, Órion?

-Ahn…não enxergo como, senhor. Afinal um único ponto no céu não delimita uma área, e sim um… ponto.

-Mas responda-me Órion: e se for o maior astro? Se for o senhor dos astros, a maior estrela?

-Bem…

-Depois de alguma reflexão, percebi que há sim uma constelação de uma estrela. E conseguimos vê-la apenas em alguns períodos do dia, porém sua luz é tão intensa que ela determina os momentos de claridade e escuridão do tempo.

-Dia??? Não seria à noite, senhor?

-Não, não. Na verdade, ela está prestes a aparecer: tem o poder de conduzir luz às outras estrelas e aquece como o fogo.

Era o momento do amanhecer. Com os primeiros raios de claridade, vinha a estrela do dia. Havia apenas uma constelação no céu naquele momento. Era uma constelação bastante curiosa: formada apenas por uma estrela. Em quesitos de magnitude, era uma estrela de primeira categoria.

Era a constelação da Estrela Solitária.

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5 respostas em “A constelação de uma estrela só

    • Foi uma tentativa sutil de homenagear o Botafogo pelo campeonato carioca, aauaiuha! xD
      “A estrela solitária te conduz” …sacou?? HAIUAIUA 😛

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